Archivo Español de Arqueología 97 
ISSN-L: 0066-6742, eISSN: 1988-3110
https://doi.org/10.3989/aespa.097.024.727

Recensão a / Review of: Ignasi Grau Mira, Jaime Molina Vidal, Julia Sarabia-Bautista, Daniel Mateo Corredor (Eds.), Paisajes romanos en el sur de la Provincia Tarraconense. Análisis arqueológico de la estructura territorial y el modelo socioeconómico, Universidad de Alicante, Alicante, 2023, 178 pp. ISBN: 978-84-1302-233-8

 

Há já alguns anos que a paisagem rural de época romana deixou de ser vista como uma realidade uniforme, dominada por amplas villae (em geral conformes ao paradigma catoniano da villa schiavistica), gerindo latifúndios que se espalhavam de modo ininterrupto pelo território. Uma paisagem standardizada, homogénea e universal a todos os campos do ocidente do Império. Nas últimas décadas, novas abordagens permitiram que, de modo progressivo, outros agentes beneficiassem da atenção dos investigadores: em primeiro momento, porque aquando da realização de levantamentos arqueológicos e mapeamentos, se começou a perceber que muitas pequenas concentrações de cerâmica de superfície e de outros vestígios mais discretos pertenceriam a locais de morada e/ou zonas de actividade de actores “subalternos”. Em seguida, com a crescente utilização de novos métodos e tecnologias de trabalho ‒ em especial os processos de detecção não invasiva, mas também as análises geoarqueológicas e paleoecológicas ‒ criou-se uma nova atenção para a recolha e análise de vestígios que, até então, eram simplesmente descartados e ignorados em qualquer escavação arqueológica. A junção desta dupla perspectiva ‒ metodologias mais apuradas para detectar e registar sítios de menor entidade e um protocolo de escavação mais atento e holístico ‒ permitiu começar a demolir o monolítico edifício das villae, trazendo para o palco um panorama vibrante e multiforme, feito de sociedades camponesas dinâmicas, empreendedoras e que procedem a uma gestão de aproveitamento dos recursos económicos flexível, criativo e distante da tradicional hegemonia da tríade mediterrânica ou do monocultivo extensivo.

Em consequência, as últimas décadas assistiram a uma nova agenda de investigação, que integra metodologias mais amplas, processos de análise globalizantes e uma abordagem de amplo fôlego. Os recentes contributos são ricos e variados, integrando as comunidades camponesas enquanto protagonistas de pleno direito (Bowes, 2021Bowes, K. (Coord.) (2021). The Roman Peasant Project 2009-2015: Excavating the Roman Rural Poor. 2 vols. Philadelphia: University of Pennsylvania Press.), analisando as diversas escalas dos modelos de povoamento (Attema, De Haas e Tol ,2010Attema, P. A. J., De Haas, T. C. A. e Tol, G. W. (2010). Between Satricum and Antium: Settlement Dynamics in a Coastal Landscape in Latium Vetus. Leuven: Peeters.), procedendo a uma análise integradora dos multivariados componentes da paisagem (Allen et al.,2017Allen, M., Lodwick, L., Brindle, T., Fulford, M. e Smith, A. (2017). The rural economy of Roman Britain. London: Society for the Promotion of Roman Studies) e, de pleno direito, possibilitando uma leitura ampla dos diversos componentes sociais (Bermejo e Grau, 2022Bermejo Tirado, J. e Grau Mira, I. (Eds.) (2022). The Archaeology of Peasantry in Roman Spain. Berlin: De Gruyter.) ‒ e nesta breve resenha pretendo apenas enumerar os marcos mais paradigmáticos de recentes modos de integrar nos modelos tradicionais a visão “de banda larga” desta nova agenda de investigação.

O presente livro insere-se plenamente nesta linha de trabalho, aplicando estes princípios a um território circunscrito, mas de pleno potencial, permitindo contrapor âmbitos periféricos a outros de espaço periurbano (p. 156). Assim procura perceber se as redes de povoamento e estratégias económicas apresentam variações ou obedecem a princípios comuns, permitindo também entender os perfis de povoamento de sítios muito variados entre si, bem como analisar as formas de relação e aproveitamento dos recursos envolventes. O território de enquadramento, situado na actual área de Alicante, apresenta o aliciante de em época romana se encontrar densamente urbanizado, com aglomerados urbanos de primeira e segunda relevância, bem como corredores de conectividade que permitem a integração deste espaço nos circuitos de troca a longa distância. Subsistem, contudo, espaços menos conectados, implantados em áreas que podemos considerar marginais, permanecendo um pouco à margem dos influxos comerciais e urbanos. Esta variedade é, portanto, aliciante, permitir criar comparações em espaços próximos. Tem ainda a possibilidade de permitir explorar diferentes abordagens metodológicas, visto que o território é variado, oscilando entre zonas planas e espaços de montanha, por um lado, e os territórios interiores e as linhas de costa mediterrânica, por outro.

São apresentados quatro estudos de caso, resultado de distintas intervenções, cuidadosamente escolhidas pela sua variedade, quer nas premissas de partida, quer na abordagem de trabalho permitida. Estes quatro casos ‒ ou “microanálises” (p. 11) ‒ permitiram a experimentação de um processo de trabalho que transcende de modo amplo a tradicional escavação arqueológica (neste caso reduzida a abordagens minimais de pequenas sondagens) e que engloba prospecção intensiva com geolocalização referenciada de testemunhos de superfície, a prospecção geofísica com distintos equipamentos, os usos de LiDAR e MDT, modelizando a análise espacial em ambientes SIG, e estratégias de ampla escala para complemento informativo, como sondagens geoarqueológicas, leituras edáficas e pedológicas e recolhas de componentes paleoambientais. Embora com um protocolo comum, nos quatro estudos de caso as abordagens foram ligeiramente distintas, consoante as possibilidades de trabalho.

Os sítios e componentes territoriais foram escolhidos em função de distintos conteúdos e das variáveis de análise possibilitadas.

A área de Gata de Gorgos possibilitou a abordagem de dois locais, no marco de um quadro territorial caracterizado por uma coexistência de possíveis villae e de figlinae nas suas envolventes, criando a possibilidade de abordar uma paisagem produtiva plena e de evidentes complementaridades. O sector de Els Ecles foi escolhido e abordado com uma análise LiDAR que possibilitou um Modelo Digital de Elevações (MDE) que colocou em destaque a existência de terraços produtivos, que foram em fase posterior prospectados intensivamente. Em seguida, procedeu-se a uma prospecção com GPR que identificou continuidades estruturais que, aliadas à análise dos materiais de superfície, sugere uma unidade doméstica com cerca de 2000 m2. Em complemento, foram realizadas abordagens de análise ao local de El Rana: de novo, prospecções com GPR complementadas com medições magnéticas que permitiram obter uma leitura promissora das realidades no subsolo. Os indicadores de uma figlina com áreas de descarte foram confirmados com a realização de sondagens arqueológicas em três sectores distintos, recuperando informação de grande conteúdo e de evidente volume ‒ 4,3 toneladas (!) de material cerâmico variado (p. 61).

O sítio de les Hortes foi anteriormente abordado com a realização de sondagens aquando das obras de beneficiação de uma estrada municipal, dando sequência a notícias antigas que, desde o século XIX, registavam testemunhos de época romana. A abordagem agora efectuada permitiu recuperar novos elementos de uma paisagem produtiva em plena actividade: um sector pertencente a um forno, com uma área complementar de decantação de argilas e, em outro ponto próximo, um conjunto de estruturas e espaços de transformação. De forma algo surpreendente foi encontrado um fragmento de uma escultura de um Eros em mármore, indicando a presença de espaços de perfil habitacional elevado na envolvente. Entre 2021 e 2022 foram realizadas prospecções geofísicas que orientaram a realização de uma sondagem, que recuperou evidências de uma lixeira, bem como de mais espaços produtivos. Como forma de melhor conhecer o território, foram ainda realizadas prospecções intensivas em áreas escolhidas, possibilitando a percepção de uma plena paisagem produtiva orientada para a produção de excedentes, possivelmente destinados à cidade de Dianum.

Para o sítio de Ull de Canals a abordagem foi distinta. Este local, situado em áreas mais interiores, foi objecto de uma análise que possibilitou definir espaços com terraços de origem antrópica, para finalidades de uso agrícola. A escavação arqueológica esteve particularmente preocupada com a obtenção de sedimentos que foram analisados posteriormente, permitindo obter dados micromorfológicos, análises de fitolitos e palinológicas e de âmbito geoquímico, que definem um conjunto de perfis de actividades produtivas que se intensificam para obtenção de maior produtividade, certamente relacionada com crescimentos demográficos urbanos ou na própria população rural.

Por último, o caso de Les Hortes Sud evidencia uma outra realidade. Após uma intervenção de emergência em 2006, o sítio foi sujeito a prospecções intensivas, geofísicas e a uma detalhada análise espacial dos vestígios de superfície que orientaram a realização de novas sondagens em 2021 e 2022. Os quatro sectores intervencionados documentam uma área de actividades heterogéneas, com ocupações de distintas fases, que de novo evidenciam áreas de transformação, registando tanques de decantação e uma zona de torcularium, estando próxima uma área residencial “de carácter muy humilde” (pp. 144-145) comprovando, contudo, uma cultura material diversificada e muito relevante.

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O conjunto de abordagens a paisagens e realidades materiais heterogéneas configura uma “proposta metodológica de arqueologia de alta resolução” (p. 155) que surge na sequência de outros trabalhos de referência que a Universidad de Alicante tem produzido nos últimos anos. Uma linha de estudo coerente, centrada na análise de “multiescalas” que, mesmo com recursos por vezes limitados, possibilita a obtenção de dados, a partir dos quais é extraído o máximo potencial informativo. Tal é possibilitado por um rigoroso protocolo na obtenção de elementos, no qual a escavação é entendida como um mero passo do processo que permite validar dados, em vez de, como tradicionalmente, ser entendida como o passo decisivo. Na realidade, este protocolo permite que, em momento prévio, a escavação seja antecedida de um conjunto de procedimentos que permitem uma fina análise do território: modelação do terreno e de micro-topografias, prospecção intensiva e métodos de detecção não intrusiva que permitem, cruzando leituras, definir os locais ideais para a realização de sondagens que, com elevada precisão de probabilidades, irão obter resultados relevantes. Durante o processo de escavação, a máxima atenção é conferida à obtenção de amostras que podem ser analisadas em laboratório: os processos de leitura sedimentológica permitem obter informações sobre as estratégias económicas e a potenciação dos recursos produtivos. Assim se conseguem conhecer melhor os processos de organização económica de pequenas entidades e de colectivos de camponeses, fornecendo uma leitura integradora dos modos de subsistência própria e também das formas de organização das paisagens do Ager Dianensiorum.

Um estudo modelar, que nos permite definir modelos replicativos para o estudo das paisagens rurais em outros territórios, nos quais estas abordagens multivariadas com menos foco na escavação podem assegurar a obtenção de uma ampla banda de resultados. A Universidad de Alicante mostra de forma plena como no estudo das paisagens a obtenção de dados depende mais da criatividade das perguntas do que do convencionalismo formal.

BIBLIOGRAFÍA

 

1 

Allen, M., Lodwick, L., Brindle, T., Fulford, M. e Smith, A. (2017). The rural economy of Roman Britain. London: Society for the Promotion of Roman Studies

2 

Attema, P. A. J., De Haas, T. C. A. e Tol, G. W. (2010). Between Satricum and Antium: Settlement Dynamics in a Coastal Landscape in Latium Vetus. Leuven: Peeters.

3 

Bermejo Tirado, J. e Grau Mira, I. (Eds.) (2022). The Archaeology of Peasantry in Roman Spain. Berlin: De Gruyter.

4 

Bowes, K. (Coord.) (2021). The Roman Peasant Project 2009-2015: Excavating the Roman Rural Poor. 2 vols. Philadelphia: University of Pennsylvania Press.